Ciclone Idai e os impactos de uma era

Por Larissa Lopes*

Não é segredo que as pessoas que residem em países africanos vivem em condições de extrema miséria. No entanto, no geral, pouco é feito para amenizar essa situação. É como alguém diz no famoso filme Hotel Ruanda: as pessoas vêem pela televisão o que ocorre na África, lamentam, e depois continuam a comer o jantar. Porém, a Brigada 4 de outubro optou por colocar em prática valores humanitários ao decidir atuar por três meses em Moçambique no auxílio à população após o ciclone Idai, que vitimou centenas de vidas e causou intensa destruição em 2019. E é um pouco dessa ação que a médica de família e comunidade e também fotógrafa Clarissa Lages mostra no documentário Ciclone Idai e os impactos de uma era.

O olhar de Clarissa apresenta o que é necessário para uma pessoa comprometida com a vontade de transformação: é crítico, científico e, sobretudo, poético. Somos presenteados nos primeiros minutos de filme com o canto de crianças moçambicanas. A voz de Clarissa narra a tristeza e a beleza de poder vivenciar a experiência da Brigada. Como boa fotógrafa, ela enfatiza a importância da observação gentil e atenta sobre o outro, e a sequência de fotos com reflexões sobre a potência do olhar das pessoas é com certeza um dos grandes momentos do curta-metragem. É perceptível a sensibilidade com que ela trata a questão da busca pela água e o quanto é cruel saber que seres humanos vivem sem direitos básicos. Há ainda a beleza de uma partida de futebol entre mulheres brasileiras e moçambicanas de forma a endossar o sentimento de irmandade entre as duas nações que, apesar de terem sido colonizadas pelo mesmo país europeu, apresentam verdadeiros abismos entre suas realidades. Além disso, o registro da confraternização das crianças após a oficina de escovação alegra os corações dos espectadores, mas sem esquecer da necessária indignação pelo fato do capital espoliar tanto a vida dessas pessoas.

Por sua vez, o filme trata com muito afeto as tradições locais. As paisagens são retratadas com reverência, o rio Buzi com o devido respeito e as pessoas com admiração. A música africana é valorizada e só cede espaço à música brasileira pois “Yáyá Massemba”, interpretada por Maria Bethânia, dialoga com os sentimentos apresentados. Nesse lugar marginalizado em escala global, visto que é até difícil encontrá-lo no mapa, a população sequer tem a experiência de entender condições crônicas de saúde que as acometem, afinal, morre-se jovem e principalmente de doenças infectocontagiosas, como a malária. Torna-se um desafio entender a experiência da doença dessas pessoas. E é nesse cenário que profissionais se organizaram em frentes de Saúde, Agroecologia e Construção, e demonstraram que o discurso da militância pode e deve ser dotado de práxis. Pessoas da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares, dentistas, integrantes do MST, ADECRU e do Partido Socialista da Zâmbia conseguiram mobilizar recursos e disponibilizar inúmeros benefícios à população local.

Dessa forma, o documentário nos sensibiliza quanto às condições de moradia e saúde a que moçambicanos são submetidos e também estimula a inconformidade frente à crueldade do capitalismo. Além disso, extrapola a análise para a nossa realidade brasileira ao apontar avanços de nossa sociedade de que não devemos abrir mão, como o Sistema Único de Saúde. Aqui, a população tem acesso a medicamentos sem custo adicional, Estratégia da Saúde da Família, hospitais, profissionais qualificados. Não são privilégios, são direitos. Não podemos abrir mão disso, não podemos ceder. Façamos o nosso melhor.

*Larissa Lopes é médica de família e comunidade, de esquerda, entusiasta do cinema e da literatura. Costuma escrever no blog https://medium.com/@buladecinema

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