Falta de vacinas e caos político: semana colocou brasil em posição arriscada frente à pandemia

Matéria de Nara Lacerda, reproduzida do portal Brasil de Fato

A pandemia do coronavírus no Brasil saiu das manchetes na semana que se encerra neste sábado (11). Em pleno período de emergência sanitária, a crise política criada por Jair Bolsonaro (sem partido), mais uma vez, tomou conta dos debates. Enquanto isso, estados e cidades relatavam falta de doses e cobravam posicionamento do Ministério da Saúde.

Ainda no último domingo (5), o país foi alertado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a necessidade de controlar a transmissão. O diretor-geral da organização multilateral, Tedros Ghebreyesus, teve uma reunião com o ministro da Saúde brasileiro, Marcelo Queiroga, em paralelo a um encontro ministerial do G-20.

Na ocasião, segundo Tedros, houve conversas para se tentar viabilizar o aumento da produção de vacinas no Brasil, que pudessem, inclusive, ajudar na imunização em outros países da América Latina.

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O diálogo com a OMS – abalado durante toda a pandemia por conta das postura negacionista do governo Bolsonaro – parece avançar um pouco. Em paralelo, porém, a insuficiência de doses segue emperrando as relações internas entre o governo federal e as gestões estaduais e municipais.

Para a médica de família e comunidade Nathalia Neiva dos Santos, da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares, o comportamento do governo federal, principalmente de Jair Bolsonaro, cria instabilidade e dificulta o diálogo, ao mesmo tempo que não surpreende

“Essa semana foi muito caótica na política e, mais uma vez, houve a postura nada surpreendente de Bolsonaro, não só de ameaçar as instituições, como também de não usar uma mísera máscara no rosto. Nada de novo no horizonte”, pontuou ela.

Em participação no podcast A Covid-19 na Semana, ela é taxativa: “Essa forma como se comporta o governo federal é criminosa. Principalmente quando se fala nos embargos, nos atropelos dos estados, nos deboches e na desvalorização das iniciativas dos governadores em relação ao controle da pandemia”.

Na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, a imunização de adolescentes estava paralisada desde o início do mês. Na última quarta-feira (8), a prefeitura conseguiu retomar o processo, mas informou que a continuidade da vacinação não estava garantida.

Já em São Paulo, o governo do estado informou que as vacinas da AstreZeneca estavam em falta, o que prejudicou a aplicação da segunda dose em vários casos. Na capital, por exemplo, quase todos os postos de saúde estavam sem o imunizante na quinta-feira (9).

“O Ministério da Saúde deixou de enviar cerca de 1 milhão de vacinas de dose 2 da AstraZeneca para São Paulo, provocando um verdadeiro apagão de vacinas nos 645 municípios do estado. O prazo de aplicação destas doses começou a vencer no dia 4 de setembro”, afirmou nota publicada pela gestão estadual

A pasta federal diz que não deve doses para São Paulo. Segundo as autoridades ministeriais, o estado paulista teria usado imunizantes destinados à segunda dose como primeira dose, sem levar em consideração o Plano Nacional de Imunização.

“Até o momento foram entregues ao estado 12,4 milhões de doses 1 e 9,2 milhões de doses 2 da AstraZeneca. As doses reclamadas não foram enviadas porque o prazo de intervalo entre a primeira e segunda dose só se dará no final do mês”, dizia o texto.

Na sexta-feira (10), o problema ainda não havia sido resolvido quando foi divulgada também a falta de vacinas da Pfizer em mais de 80% dos locais de vacinação da capital paulista.

Outros estados também registraram o problema ao longo da semana. Houve relatos de governos e prefeituras em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, na Paraíba e em Tocantins, por exemplo.

Alertas

Enquanto o caos político provocado por Bolsonaro deixava a covid longe das principais manchetes e a falta de vacinas virava realidade em diversas regiões, alguns alertas importantes foram divulgados.

Na quarta-feira (8), a Organização Mundial da Saúde informou que o continente americano foi o único que registrou aumento de casos da covid ao longo da primeira semana de setembro. A alta foi de quase 20%. O Brasil se manteve na lista dos cinco países que mais confirmaram novos infectados no período.

No mesmo dia a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) divulgou o Boletim Observatório Covid-19, que mostrou melhora nos índices de ocupação de leitos de UTI no SUS. Praticamente todas as unidades da federação estão fora da zona de alerta e têm menos de  60% de lotação.

Ainda assim, a Fiocruz alertou para os fatos de que a taxa de letalidade da covid-19, hoje em 3%, permanece alta no país e de que a transmissão ainda é intensa. Para diminuir os riscos de novo colapso, o Brasil precisa correr com a vacinação. 

“É importante a gente fazer a nossa tarefa de casa. O Brasil acelerar a vacinação. Isso diminui a chance de a gente viver uma onda como a do início deste ano, um aumento muito brusco de óbitos”, explica Nathália Neiva.

A médica completa explicando que o controle mundial da covid é imprescindível, e resolver o problema somente em território nacional não é suficiente, “O Brasil é um país de fronteira aberta, com turismo aberto, não exige quarentena de quem vem para cá. Isso coloca não só o país, mas também o continente e uma escala global de ausência de controle”.

Edição: Vinícius Segalla

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