Covid: Passaporte da vacina faz sentido com menos da metade da população totalmente imunizada?

Entrevista de Tainá Vaz para o podcast A Covid-19 na Semana do Brasil de Fato

Medida incentiva a busca pelas doses, mas não garante controle da propagação e pode gerar falsa sensação de segurança

Diversas cidades brasileiras anunciaram, ao longo da última semana, que vão passar a exigir comprovação de vacinação para pessoas participarem de eventos com aglomerações. As decisões têm surtido efeito positivo na busca pelos imunizantes, mas podem levar a uma falsa sensação de segurança.

Estamos visando o quê? O retorno da economia a qualquer custo ou a saúde das pessoas?

Na cidade de São Paulo, o passaporte da vacina – como vem sendo chamada a comprovação – começou a ser obrigatório em 1º de setembro, mas somente para situações com mais de 500 pessoas. Encontros menores e estabelecimentos como shoppings, bares e restaurantes têm autonomia para decidir se vão fazer a exigência ou não.

Já a prefeitura do Rio de Janeiro definiu que a medida passa a valer só a partir de 15 de setembro. O comprovante de imunização será necessário para estabelecimentos e locais de uso coletivo, como academias de ginástica, estádios e ginásios esportivos, cinemas, teatros e museus, entre outros estabelecimentos. A definição não se aplica, no entanto, a bares, restaurantes e praias.

Outras cidades sinalizam que devem seguir caminhos semelhantes. Em Florianópolis (SC), a gestão municipal informou que estuda uma estratégia parecida para depois que a imunização alcançar toda a população. Já em Suzano, no interior de São Paulo, o passaporte começa a ser exigido a partir da próxima quarta-feira (8) e será obrigatório para eventos com mais de 300 pessoas.

Na região metropolitana de São Paulo, o município de Guarulhos também estabeleceu a exigência desde o dia 1º de setembro. Em Rondonópolis, um dos maiores municípios de Mato Grosso, a prefeitura estabeleceu a obrigatoriedade desde a semana passada. 

Como tem sido prática desde o início da pandemia, o governo federal não estabeleceu qualquer tipo de orientação para cidades e estados sobre o assunto. O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, é crítico da medida. Na última sexta-feira (3), ele declarou que esse tipo de medida prejudica as liberdades individuais.

Em participação no podcast A Covid-19 na Semana, a médica emergencista Tainá Vaz, da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares, afirma que, mais uma vez, a falta de unidade nas medidas prejudica a caminhada do Brasil para o fim da pandemia.

“É uma marca do nosso confronto à pandemia desde o início: cada um por si. Governadores e prefeitos, dentro de suas possibilidades e do que entendem como certo, acabam tomando medidas para tentar conter a pandemia”, diz a médica.

Para controlar a circulação do coronavírus é preciso vacinar totalmente pelo menos 70% da população – Luiz Pessoa/SEI / Fotos Públicas

Tainá explica, no entanto, que a tentativa de tentar controlar a situação e retomar a normalidade das atividades econômicas exigindo comprovante de vacinação em alguns lugares é insuficiente. “O maior local de aglomeração no dia a dia são os transportes públicos. Qual será a eficácia de obrigar um comprovante de vacina para um restaurante ou uma festa com o metrô seguindo lotado?”, questiona. 

Segundo a médica, governantes precisam adotar medidas em conjunto, incrementar a busca ativa por pessoas não vacinadas e estimular a imunização com campanhas: “Estamos visando o quê? O retorno da economia a qualquer custo ou a saúde das pessoas?”.

Dados divulgados pela prefeitura do Rio de Janeiro mostram que o passaporte da vacina levou a uma busca maior pela segunda dose do imunizante. Poucos dias após o anúncio de que o documento passará a ser obrigatório, a cidade diminuiu em 40% o índice de pessoas que estavam atrasadas na vacinação.

Por outro lado, também na capital fluminense, uma distorção preocupante foi observada. Um grupo de pessoas foi flagrado tentando aplicar um golpe em um posto de saúde para roubar comprovantes de vacinação. A Secretaria Municipal de Saúde suspeita que a ação tinha como objetivo fraudar o documento, e o caso foi denunciado à polícia. 

Seja qual for o andamento das medidas que exigem a apresentação do passaporte da vacina para aglomerações, a médica Tainá Vaz reforça o alerta: “Todo mundo quer voltar a ter um pouco da vida que a gente tinha antes. Mas a aglomeração realmente é o meio de transmissão da doença, e qualquer um pode ser portador do vírus, vacinado ou não”. 

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Edição: Vinícius Segalla

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