O cuidado na rua em meio a crise: REDE RUA

Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares – Núcleo Ceará

Quando a pandemia havia acabado de chegar no país, um questionamento deu início ao que se tornou uma das principais frentes de atuação do núcleo do Ceará da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares: como essa pandemia vai afetar a população em situação de rua? Pouco após, em 1º de abril desse ano e durante o agravamento da pandemia no estado, iniciavam-se atendimentos em saúde para esta população.

Nesses quatros meses, médicos, médicas e estudantes da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares do núcleo Ceará puderam adentrar o mundo dessas subjetividades, pois passamos a compor as escalas de atendimento emergencial à população em situação de rua em tempos de pandemia. Os atendimentos surgiram como fruto de parceria com atores que já desenvolviam trabalhos com o povo da rua, articulados na chamada Rede Rua (Coletivo Arruaça, Grupo Espírita Casa da Sopa, Pastoral do Povo da Rua, Associação de Amparo ao portador com Tuberculose-APTU, Instituto Compartilha e ONG Pequeno Nazareno, entre outros), e chegaram a ocorrer em 4 locais distintos, de segunda a sábado, com até 10-15 atendimentos por turno em cada local, beneficiando centenas de pessoas em situação de rua com assistência a saúde e provisão de marmitas e itens de higiene. As demandas são as mais variadas: tuberculose, escabiose, hipertensão, síndromes gripais, violência, diabetes, uso abusivo de substâncias, adoecimentos psíquicos dos mais variados, doenças autoimunes, cuidados durante a gestação, micoses, verminoses… adoecimentos crônicos e agudos diversos, e agravados pela invisibilização explicitada no frequente comentário: “Dr. essa é a primeira vez que alguém escuta meu coração”, “Dra. essa é a primeira vez que alguém é tão atencioso comigo”.

Mesmo diante desses relatos e agradecimentos compreendemos que realizar essas ações de modo emergencial não é o suficiente. Na cidade de Fortaleza vivem hoje quase 3 mil pessoas em situação de rua, de acordo com estimativa realizada pelos integrantes da Rede Rua, visto que não há um censo atualizado pelo IBGE, o que dificulta a análise da situação e o planejamento de intervenções, e que também serve de exemplo para a invisibilização a qual essas pessoas estão submetidas. Nesse contexto, desprovidas de habitação digna, segurança alimentar e higiene pessoal, impedidas de cumprir o isolamento domiciliar e tendo seu acesso ao SUS dificultado, essa população se viu ainda mais desassistida em meio à acentuação das desigualdades e da negação de seus direitos, em meio à maior crise de saúde da história recente, porque afinal como eles mesmo dizem “na rua não há quarentena”.

A Política Nacional para a População em Situação de Rua prevê o direito a uma atenção multidisciplinar que contemple a complexidade da sua saúde dentro das suas realidades e individualidades, sabendo e refletindo que “estar nas ruas é adoecedor”, que o autocuidado mais básico pode estar fora de alcance quando o papelão é o local de dormida e comer do lixo pode ser a única possibilidade para uma refeição. Entendendo que nesse contexto o uso de substâncias lícitas e ilícitas é muitas vezes um sedativo para as dores da alma e um escape da cruel realidade,  e que estar em situação de rua, além de ser um condicionante e um agravante para vários problemas de saúde, é também motivo frequente para ser barrado na porta de entrada das Unidades Básicas de Saúde, seja na porta ou no sistema que pressiona por um endereço para o cadastro e documentos para o uso da rede de saúde, quando muitas vezes não têm nem um nem outro, e têm seus direitos negados ou questionados de novo, mais uma vez e sempre, em uma realidade por eles já conhecida.

É preciso que as políticas públicas sejam efetivadas, que profissionais sensíveis e capacitados para esse contexto sejam contratados, que as ações sejam pensadas de forma longitudinal. Sendo assim, é preciso que o Consultório na Rua de Fortaleza seja efetivado e que haja um diálogo estreito entre Ministério Público, Secretarias de Saúde e Sociedade Civil Organizada para que os equipamentos que por ventura venham a ser construídos e implementados dialoguem com a mobilidade e o fluxo da cidade. De nada ou pouco adianta termos a implementação de alguns equipamentos bem estruturados, que estão fora dos principais territórios e que não concedem acesso em massa ao povo da rua.

Hoje, a Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares atua de segunda a sábado compondo escala de assistência médica e de educação em saúde para essa população. Além das escalas, que são a parte prática da nossa atuação, a RNMP CE vem também construindo articulações de modo a interligar a perspectiva da saúde a demais outras lutas como a participação efetiva no Grupo de Trabalho Saúde das Populações Vulneráveis da Faculdade de Medicina da UFC e o diálogo com o Programa de Residência Médica de Medicina de Família e Comunidade, além do fortalecimento genuíno como membros da REDE RUA, de forma a proporcionar educação continuada aos integrantes das ações e a incluir o tema nas formações da área da saúde. Compreendemos que além de garantir a efetivação da Política Nacional de Consultório na Rua e de Rua é preciso também formar profissionais com habilidades específicas para atender esta população, de modo a tentar garantir direitos que já são seus e mesmo assim lhe são negados.

Fotografias: Maria Nice; Emrah Kartal

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